Etiologia

O período pós-parto começa no parto e continua até se completar a involução uterina, culminando com a retomada da ciclicidade.

A duração de um período pós-parto é afetada por uma grande variedade de fatores como idade, raça, estação do ano, nutrição, parto, doenças da reprodução, presença de bezerro, produção de leite e distocia.

A involução uterina envolve vários processos, como:

  • Necrose e descamação da camada superficial e expulsão da carúncula
    • Este processo se inicia aos 5 dias a 7 dias, completando-se entre 11 e 12 dias pós-parto. O tecido necrótico forma os lóquios
  • Redução das carúnculas a seu tamanho pré-parto
    • Esta etapa se completa entre 2 e 3 semanas pós-parto
  • Re-epitelização das carúnculas
    • A involução uterina é completada entre 25 e 50 dias

A involução uterina começa com redução do tamanho uterino através da vasoconstrição e contrações do miométrio, relativamente lenta durante os 10 primeiros dias, seguida por um aumento do tônus e consequentemente redução do tamanho uterino pelos dias que se seguem (entre 10 a 14 dias).

A involução se completa com retorno a um estágio uterino semelhante ao estágio não gravídico entre 25 a 50 dias, quando o epitélio recobre as carúnculas.

A involução uterina é um processo mais séptico do que asséptico, em que vários microorganismos facultativos são isolados do meio uterino como Steptococcus hemolíticos, Corynebacterium spp, Staphylococcus spp, coliformes e anaeróbios Gram -.

O útero pós-parto proporciona todas as condições necessárias para um crescimento bacteriano, entretanto, em circunstâncias normais os microorganismos são eliminados em poucos dias ou semanas.

Essa eliminação ocorre pela contração do miométrio, que força os lóquios para o exterior, pela atividade fagocitária dos leucócitos nos fluidos uterinos e no endométrio e pelas substâncias antibacterianas produzidas pelas glândulas uterinas.

Entretanto, por uma mudança no mecanismo da involução uterina, passando de uma involução séptica normal para uma involução séptica anormal, as bactérias aeróbias e anaeróbias atuam sinérgicamente de uma maneira tal que favorecem o crescimento e a patogenicidade uma das outras, levando a um dano tal no endométrio, que pode ser permanente ou não, comprometendo a fertilidade.

Estudos experimentais demonstraram que o Fusobacterium necrophorum produz uma leucotoxina e o Bacterioides melanogenicus e o B. fragillus produzem e liberam uma substância que previne a fagocitose bacteriana.

Por outro lado, o Actinomyces pyogenes (que produz um fator de crescimento para o F. necrophorum), em conjunto com os outros anaeróbios aparecem como os principais causadores de uma infecção uterina como a endometrite e a piometra.

Existe uma prevalência de bactérias anaeróbias em vacas com endometrites, como o Actinomyces pyogenes (33 a 8 %), o que confirma uma aparente ação destas bactérias no desenvolvimento de uma endometrite.

As bactérias Gram - anaeróbias (prevalência de 17 a 70%) produzem uma substância que protege o Actinomyces pyogenes de uma possível fagocitose, que por sua vez, produz um fator de crescimento para o Fusobacterium necrophorum.

Mesmo ocorrendo invasões por outras bactérias além das já citadas, as quais exercem pouco ou nenhum efeito sobre a fertilidade, estas podem ser responsáveis pelo aparecimento de endometrites agudas sépticas, as quais geralmente são associadas com uma Retenção de Placenta ou por alguma mortalidade que possa vir a acontecer.

Dentre as principais causas das endometrites destacam-se em especial fatores hormonais e outros que levam a vaca com um epitélio uterino íntegro a ter um epitélio danificado predispondo o útero a processos inflamatórios e infecciosos.

Portanto a endometrite é uma doença multifatorial que leva à uma alteração de uma involução uterina séptica "normal" para uma involução uterina séptica "anormal" e pode ser desencadeada por:

  • Anormalidades durante a gestação
  • Anormalidades durante o parto
    • Como as que ocorrem pela manipulação uterina incorreta com traumatismos causados por intervenções obstétricas durante a distocia
  • Anormalidades imediatas após o parto
    • Como a retenção de placenta, acetonemia etc.
  • Traumatismos e/ou infecções
    • São adquiridas através da Inseminação Artificial
  • Disfunção do MDU (Mecanismo de Defesa Uterino)
    • Este mecanismo de defesa é composto por três sistemas, ou seja, a barreira física (contrações, epitélio), fagócitos e imunoglobulinas
  • Estresse
    • Como o térmico, manejo, nutricional etc.

Os principais microorganismos que aparecem em uma endometrite são as bactérias Gram + e Gram -, principalmente os anaeróbios.

Na endometrite aguda as bactérias mais comumente encontradas são:

  • Staphylococcus aureus
  • Streptococcus spp
  • Escherichia coli
  • Aerobacter aerogenes
  • Proteus mirabilis
  • Klebsiella spp
  • Shigella spp
  • Salmonella spp
  • Pseudomonas aeruginosa

Outras bactérias podem estar presentes, podendo ocorrer um processo de toxemia bacteriana quando é acompanhada de uma infecção sistêmica.

Na endometrite subaguda e crônica, as bactérias mais comumente encontradas são:

  • Actinomyces pyogenes (> 65%)
  • Fusobacterium necrophorum (> 60%)
  • Bacterioides spp (> 70%)